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Desigualdade e pobreza
são o mesmo?

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Quanto maior é a desigualdade, maior é o risco de pobreza nos países europeus. Em Portugal não é diferente. Os mais pobres foram os que perderam uma maior proporção do seu rendimento durante a crise e isso refletiu-se no aumento da desigualdade. Ao mesmo tempo, essa perda agravou todos os indicadores de pobreza em Portugal. E foram sobretudo as crianças que mais sofreram, fruto dos cortes nas prestações sociais das famílias. Mas o que é mesmo viver em privação material ou com o salário mínimo todos os meses?

  • O QUE É A DESIGUALDADE?

  • O QUE É A POBREZA?

  • O grau de desigualdade da distribuição dos rendimentos é medido através do coeficiente de Gini, um indicador que ajuda a perceber se num país os rendimentos estão igualmente distribuídos por todas as pessoas (e nesse caso o valor é 0) ou se estão todos concentrados numa só pessoa (nesse caso o valor é 100). Quanto maior for o valor do coeficiente, mais desigual é um país.

  • O grau de pobreza é medido através do indicador da taxa de pobreza. Este indicador verifica quantas pessoas vivem abaixo do limiar de pobreza. Esse limiar atualmente é de 422 euros, ou seja, representa 60% do rendimento mediano dos portugueses. Basta o rendimento mediano subir, para que a o limiar de pobreza também suba, fazendo oscilar a taxa de pobreza.

quanto mais desiguais,
mais pobres são os países ?

Comparação entre o nível de desigualdade e a taxa de pobreza em 2013 nos 28 países da União Europeia. O gráfico mostra uma correlação entre a desigualdade e a pobreza: quanto mais grave é o nível de desigualdade num país, mais alargado é o risco de pobreza.

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Menos desigual Mais desigual

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DESIGUALDADE E POBREZA DE MÃOS DADAS

Quanto mais desigual, mais pobre é um país

Carlos Farinha Rodrigues
Professor do ISEG

Autor do Estudo Desigualdade do Rendimento
e da Pobreza em Portugal

Olhamos para a forma desigual como os rendimentos estão distribuídos num país e acabamos a falar sobre o grau de pobreza existente nesse país. Mas que relação existe entre a desigualdade e a pobreza? Poderá dizer-se que quanto mais desigual mais pobre é um país? Os dados sobre o nível de desigualdade e de pobreza de todos os países da União Europeia mostram que sim.

Há uma forte associação entre os dois fenómenos: quanto maior é o nível de desigualdade na distribuição dos rendimentos entre a população, ou seja, quanto mais concentrado está o dinheiro numa parte da população, mais pobre esse país é. "As transformações ocorridas nos rendimentos familiares e na desigualdade no decorrer do processo de ajustamento ocorrido entre 2009 e 2014 não poderiam deixar de se repercutir na alteração dos indicadores de pobreza. Embora o fenómeno da pobreza, dada a sua natureza multidimensional, extravase em muito o âmbito das desigualdades, os dois fenómenos estão profundamente ligados", lê-se no estudo.

"Nós temos uma economia assente em baixos salários. Uma economia com estas características gera sistematicamente desigualdade e pobreza. Isto significa que não podemos combater a pobreza de forma efetiva sem ao mesmo tempo combater as desigualdades", explica Carlos Farinha Rodrigues.

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O que mudou na
pobreza em portugal?

Os indicadores que retratam a evolução do país

evolução da pobreza monetária
(2003-2014)

O gráfico mostra a evolução do risco de pobreza e a da intensidade da pobreza, ou seja, quão abaixo da linha de pobreza estão as pessoas mais pobres.

  • Taxa de pobreza
  • Intensidade
    de Pobreza

Fonte: Rodrigues, C.F., Figueiras,R. e Junqueira,V.(2016). Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: As Consequências Sociais do Programa de Ajustamento, FFMS.

Nota: Informação baseada nos microdados do ICOR 2004 a 2015.

OS MAIS POBRES FICARAM AINDA MAIS POBRES

Todos os indicadores de pobreza em Portugal
agravam-se durante a crise

O número de portugueses pobres aumentou entre 2009 e 2014 para 2,02 milhões de pessoas, ou seja, mais 116 mil pessoas do que em 2009. Este número significa que um em cada cinco portugueses vive com um rendimento mensal abaixo de 422 euros.

Só que não foi este o único indicador da pobreza que se agravou. Além de ter aumentado o número de pessoas pobres, também se intensificou a gravidade da pobreza – os pobres estão ainda mais pobres e o dinheiro que têm mensalmente para gastar é ainda menos. Entre 2009 e 2014, a intensidade da pobreza aumentou 30%.

"O aumento das situações de pobreza em Portugal nos anos mais recentes acompanhou uma evolução semelhante registada nos países da União Europeia e da zona euro", sublinha o estudo, enquadrando o agravamento da pobreza dos portugueses nessa evolução europeia. "Estes resultados não podem deixar de ser preocupantes, não somente pelo que representam em termos de retrocesso das condições de vida das populações atingidas pelo agravamento da pobreza, mas igualmente por traduzirem um claro insucesso da estratégia Europa 2020, que se propunha atingir até 2020 uma redução de 20 milhões de pessoas em risco de pobreza e exclusão social", concluem.

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A crise

Na primeira pessoa

Quando me disseram que a minha bolsa só dava para as propinas, apanhei um susto porque eu costumava ter uma bolsa total. Sabia que tinha de me mexer. Se não fizesse alguma coisa, se não fosse trabalhar, acabava. Não podia estudar. Não podia mesmo.

Ana Vieira, estudante. Reportagem SIC

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Uma ‘armadilha’ nos indicadores

Como se calcula a linha de pobreza?

Dizer que uma pessoa em Portugal é pobre quando vive com menos de 422 euros por mês não parte de um estudo real sobre os gastos médios de uma família, sobre o valor de uma renda ou sobre os preços de produtos alimentares num supermercado. Essa linha é definida a partir do rendimento mediano do país e esse valor pode ir oscilando de ano para ano. Por exemplo, se os rendimentos caem no país – como aconteceu nos últimos anos de crise – esse valor mediano poderá cair. Mas, independentemente disso, a linha de pobreza é calculada sempre da mesma forma: representa 60% do rendimento mediano.

Num país como a Dinamarca, ser pobre é viver com menos de 1389 euros por mês (que correspondem a 60% do rendimento mediano dos dinamarqueses). Na Finlândia, essa linha é de 1185 euros enquanto na Roménia o rendimento mediano é tão baixo que os 60% equivalem a 110 euros por mês. Ser pobre na Roménia é, por isso, viver com menos de 110 euros por mês.

O que aconteceu em Portugal é que entre 2009 e 2014 a linha de pobreza baixou. Enquanto no início da crise uma pessoa que vivesse com menos de 434 euros mensais era considerada pobre, em 2014 já não é – mesmo que os seus rendimentos não tenham mudado ao longo desse tempo ou que até tenham descido. Em 2014 ser pobre era viver com menos de 422 euros mensais. Para um casal com dois filhos menores este limiar desceu de 911 para 886 euros.

Qual o problema? É que muitas pessoas ou famílias que anteriormente eram considerados pobres 'abandonaram' a situação de pobreza apenas porque o limiar baixou.

É por essa razão que existe outra forma de olhar para a evolução da pobreza: fixando a linha num determinado ano. Se virmos como é que evoluiu o risco de pobreza entre os portugueses tendo como ponto em comum a linha de pobreza de 2009, a leitura é diferente. Assim, entre 2009 e 2014 a pobreza passou de 17,9% para 24,2%, englobando um quarto da população portuguesa. "Este valor traduz de forma mais realista a alteração efetiva das condições de vida das famílias mais carenciadas no decorrer da crise. E significa igualmente que cerca de 2,5 milhões de portugueses se encontravam em situação de pobreza em 2014", conclui o estudo.

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Quem mais sofreu com
o aumento da pobreza?

EVOLUÇÃO DO RISCO DE POBREZA

EM CRIANÇAS, JOVENS E IDOSOS

O gráfico mostra a evolução dos indicadores da pobreza em dois grupos específicos da população: as crianças e jovens com menos de 18 anos e os idosos com 65 e mais anos.

  • Crianças
    e Jovens (0 - 17)
  • Idosos (65+)

Fonte: Rodrigues, C.F., Figueiras,R. e Junqueira,V. (2016). Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: As Consequências Sociais do Programa de Ajustamento, FFMS.

Nota: Informação baseada nos microdados do ICOR 2004 a 2015.

PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE A POBREZA EM PORTUGAL

O QUE OS NÚMEROS DIZEM SOBRE OS PORTUGUESES MAIS POBRES

  • O AUMENTO DA POBREZA AFETOU SOBRETUDO AS CRIANÇAS. PORQUÊ?

  • ENTÃO HÁ MENOS IDOSOS POBRES?

  • HÁ TRABALHADORES POBRES?

  • QUEM TEM HABILITAÇÕES ACADÉMICAS CORRE MENOR RISCO DE SER POBRE?

  • Tendo em conta que as crianças não têm rendimentos, se estão em situação de pobreza é porque a família também está. Os números mostram que um quarto das crianças estava em situação de pobreza (24,8%) em 2014, uma proporção que foi crescendo a partir de 2011 e contrariando a tendência de queda que tinha desde 2009. Em 2014, volta a descer pela primeira vez em quatro anos.

    Ao longo desse tempo também aumentou a intensidade dessa pobreza. Se o olhar se centrar na forma como o risco de pobreza evoluiu entre os jovens, a conclusão não é muito diferente. É até aos 34 anos, e especialmente entre os 18 e os 24 anos, que a pobreza mais aumentou.

  • Desde o início deste século e até 2012, a pobreza entre os idosos esteve sempre a diminuir. Essa situação inverteu-se em 2013 e 2014. Os dados mostram que, em 2014, 17% dos idosos estavam numa situação de pobreza. De qualquer forma, a melhoria que ocorreu até 2012 não aconteceu de forma homogénea entre a população idosa em Portugal.

    Por um lado, desde 2005 que os rendimentos da população com mais de 65 anos foram crescendo, aproximando-se da média do país, tendo o mesmo acontecido aos níveis de privação material e de desigualdade. Em 1994, 26% da população pobre em Portugal tinha mais de 65 anos, mas em 2010 essa proporção tinha descido para 20%. Esta queda tem ainda mais peso tendo em conta o envelhecimento da população, ou seja, nesse período a percentagem de portugueses com mais de 65 anos passou de 14% para 18% do total da população.

    Por outro lado, porém, não se pode dizer que essas melhorias atingiram todos os idosos. Entre a população com mais de 75 anos a viver sozinha a taxa de pobreza atingia os 30% em 2010. E isso significa que este continua a ser um grupo muito vulnerável social e economicamente.

  • Sim, há. Os números mais recentes mostram que 10,7% dos trabalhadores portugueses viviam abaixo do limiar da pobreza em 2014 e essa é a percentagem mais elevada desde 2008, quando chegava aos 11,8%, segundo o Eurostat. E 6,3% da população empregada (incluindo patrões) viviam numa situação de privação material severa, ou seja, não conseguiam ter dinheiro para assegurar quatro indicadores numa lista de nove — incluindo pagar uma despesa inesperada, aquecer a casa, fazer uma refeição com peixe ou carne de dois em dois dias ou ter televisão, telefone fixo ou automóvel.

    Os números dos Quadros de Pessoal mostram ainda que a percentagem de trabalhadores por conta de outrem a viver em situação de pobreza aumentou de 6,1% em 2009 para 8% em 2014.

    Quando um país tem muitos trabalhadores pobres é sinal de que trabalhar já não é suficiente para garantir uma vida longe da pobreza. Portugal é dos países da União Europeia onde há mais trabalhadores pobres. Só há seis países com uma percentagem superior: Roménia (19,6%), Grécia (13,4%) e Espanha (12,5%) ocupam os piores lugares, além da Estónia, Itália e Luxemburgo

  • O risco de pobreza entre quem não foi além do 6º ano de escolaridade é, de facto, maior do que nos restantes grupos. E aumentou o número de pessoas pobres com esse grau de escolaridade. Se antes da crise, o risco de pobreza respetivo era de 27%, quatro anos depois era de 28,4%. Já quem terminou um curso superior estava numa situação de risco muito inferior: 4,7% dos licenciados eram pobres em 2014 (ainda que a percentagem fosse de 2,4% em 2009).

O impacto da crise
na pobreza (2009-2014)

O gráfico mostra o que mudou na pobreza entre 2009 e 2014 tendo em conta a idade e o grau de escolaridade do indivíduo de referência das famílias

Taxa de risco de pobreza
por grupos etários do indivíduo de referência da família

qual a
sua idade

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Taxa de risco de pobreza
por nível de escolaridade do indivíduo de referência da família

qual o seu nivel escolar

Limpar resultados

2009
2014

Fonte: Rodrigues, C.F., Figueiras,R. e Junqueira,V.(2016). Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: As Consequências Sociais do Programa de Ajustamento, FFMS.

Nota: Informação baseada nos microdados do ICOR 2010 a 2014. Valores da taxa de pobreza estimados considerando a linha de pobreza relativa para cada ano.

Elsa Justino

Administradora do Fundo Social da UTAD

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Padre Lino Maia

Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade

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SABE O QUE É VIVER

EM PRIVAÇÃO MATERIAL?

Responda que não apenas se não conseguir ter cada um destes itens por dificuldades económicas. Se não os tiver por opção, mas tiver capacidade financeira para os comprar, deve responder 'sim'.

1

Tem capacidade para assegurar o pagamento imediato de uma despesa inesperada próxima do valor mensal da linha de pobreza (€422), sem recorrer a empréstimo?

2

Tem capacidade para pagar uma semana de férias, por ano, fora de casa, suportando a despesa de alojamento e viagem para todos os membros do agregado?

3

Tem em atraso, motivado por dificuldades económicas, algum dos pagamentos regulares relativos a rendas, prestações de crédito ou despesas correntes da residência principal, ou outras despesas não relacionadas com a residência principal?

4

Tem capacidade financeira para ter uma refeição de carne ou de peixe (ou equivalente vegetariano), pelo menos de 2 em 2 dias?

5

Tem capacidade financeira para manter a casa adequadamente aquecida?

6

Tem capacidade financeira para ter uma máquina de lavar roupa?

7

Tem capacidade financeira para ter uma televisão a cores?

8

Tem capacidade financeira para ter telefone fixo ou telemóvel?

9

Tem capacidade financeira para ter um automóvel (ligeiro de passageiros ou misto)?

Atenção: Por favor preencha todos os campos

man smiling sad man

em 2015

da população

estava na sua situação

O que é a privação material?

Considera-se que uma pessoa vive numa situação de privação material quando não tem capacidade para dar resposta a três dos nove tipos de dificuldades económicas, listados no inquérito anterior e definidos pela União Europeia. Entre essas dificuldades está a incapacidade de pagar despesas inesperadas, de pagar refeições regulares de carne e peixe, pagar uma semana de férias por ano para a família ou a incapacidade de pagar as contas da casa atempadamente, entre outros itens. Essa era a situação em que vivia 21,6% da população portuguesa em 2015.

E a privação material severa?

É um nível mais acentuado de privação material. Considera-se que as pessoas que não conseguem dar resposta a quatro dos itens listados no inquérito anterior vivem em privação material severa. Essa era a situação em que vivia 9,6% da população portuguesa em 2015.

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Conseguiria viver
com o salário mínimo?

Introduza em cada categoria as suas despesas médias mensais. Se ultrapassar os 530 euros mensais de salário mínimo, o gráfico mostrará quanto mais dinheiro para lá do salário seria preciso para conseguir pagar as suas despesas.

Habitação

Despesas mensais com prestação do crédito ao banco ou renda de arrendamento

Alimentação

Compras mensais no supermercado, almoços e jantares fora de casa

Transportes

Combustível para o carro, bilhetes de transportes ou passe mensal.

Serviços

Pagamento das contas mensais de eletricidade, água e gás, ou outros serviços domésticos (limpeza e condomínio, por exemplo).

Saúde

Gastos fixos com medicamentos, consultas médicas ou tratamentos.

Ensino

Pagamento de mensalidade em creches ou escolas e compra de materiais escolares.

Telecomunicações

Pagamento das contas mensais com televisão, telemóvel e internet.

Outras despesas

Despesas mensais com atividades de lazer, compra de vestuário e calçado, entre outras despesas.

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Nota: cálculo efetuado tratando-se de um salário mínimo pago num emprego a tempo inteiro, com 35 horas semanais. O preço por hora de trabalho é de 3,78€.

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Nota: cálculo efetuado tratando-se de um salário mínimo pago num emprego a tempo inteiro, com 35 horas semanais. O preço por hora de trabalho é de 3,78€.

o que significa
o salário mínimo?

pouco separa a linha de pobreza dos 530 euros de salário mínimo

Sobre os 530 euros brutos são ainda feitos descontos de 11% para a Segurança Social, o que dá um total líquido (depois de fazer os descontos) de 471,70 euros. Se um trabalhador tiver um contrato de trabalho, é preciso multiplicar esse valor mensal líquido (471,70 euros) por 14 meses, para contar com o subsídio de férias e de Natal. Então depois é necessário dividi-lo por 12 meses, para saber exatamente com quanto é que o trabalhador conta ao final de cada mês, durante um ano. São 550 euros. O que significa uma diferença de 128 euros em relação ao limiar de pobreza (atualmente de 422 euros). Ou seja, essa é a diferença que separa alguém que receba o salário mínimo de quem vive numa situação de pobreza.

evolução do
salário mínimo
nos últimos anos

trabalhadores abrangidos
pelo salário mínimo