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Quem mais perdeu
com a crise

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O país sentiu uma perda geral de rendimentos, mas essa perda não foi igual para todos. Apesar da diminuição dos rendimentos ter tocado, em geral, todos os portugueses, a perda não atingiu da mesma maneira os mais pobres e os mais ricos. E se olharmos para as idades, foram os mais jovens que sentiram uma quebra mais intensa. Um maior nível de escolaridade não foi suficiente para evitar também uma perda entre quem tem ensino superior.

Qual era o rendimento mensal (líquido) da sua família em 2014?

Quantos adultos tinha o seu agregado familiar?

Quantas crianças (com menos de 14 anos) tinha o seu agregado familiar?

Quanto perderam as pessoas
que ganhavam como eu?

O gráfico mostra a perda de rendimentos entre 2009 e 2014 de cada decil da escala de rendimentos. O primeiro decil corresponde aos 10% mais pobres e o décimo decil aos 10% mais ricos.

Rendimento equivalente (valores anuais dos limites de cada decil em 2014)

decil

Perda de rendimento (%)

decil

até 3628€

1 coin
decil

3629€ até 5139€

1 coin
decil

5140€ até 6229€

1 coin
decil

6229€ até 7308€

1 coin
decil

7313€ até 8434€

1 coin
decil

8435€ até 9563€

1 coin
decil

9567€ até 11172€

1 coin
decil

11173€ até 13314€

1 coin
decil

13315€ até 17568€

1 coin
10º
decil

17582€ ou mais

1 coin

Limpar resultados

Fonte: Rodrigues, C.F., Figueiras, R. e Junqueira,V.(2016). Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: As Consequências Sociais do Programa de Ajustamento, FFMS.

Nota: Os valores deste gráfico são uma aproximação à perda do rendimento equivalente entre 2009 e 2014 dos vários decis. Os valores estimados assumem a hipótese de que a família não mudou de decil ao longo do período.

Os mais pobres perderam mais

O impacto da crise, do desemprego, da queda dos salários, pensões e prestações sociais

Carlos Farinha Rodrigues
Professor do ISEG

Autor do Estudo Desigualdade do Rendimento
e da Pobreza em Portugal

Várias vezes a pergunta foi feita e várias vezes ficou sem resposta. Quem é que perdeu mais nos últimos anos com a crise? Os mais ricos ou os mais pobres? Foi a classe média que saiu mais penalizada deste período? Nunca faltaram argumentos para defender as diferentes perspetivas. O que faltava eram os números..

Analisados à lupa, os números que retratam a evolução dos rendimentos dos portugueses entre 2009 e 2014, os anos de pico da crise, dão uma resposta à pergunta. E se por um lado é verdade que todos perderam, por outro também é certo que nem todos perderam com a mesma intensidade. Em geral, entre 2009 e 2014, os rendimentos dos portugueses tiveram uma quebra de 12%, ou seja, menos 116 euros por mês. Mas, em termos relativos, a quebra foi maior nos rendimentos dos mais pobres e menor nos rendimentos dos mais ricos.

Como se chega a essa conclusão? Há que dividir a população em dez grupos, dos mais pobres aos mais ricos. No primeiro grupo estão os que têm menores rendimentos (os 10% mais pobres) que em 2014 viviam mensalmente com cerca de 200 euros. E no décimo grupo estão os que têm os rendimentos mais altos (os 10% mais ricos), com cerca de 2500 euros mensais.

Quando se olha para a forma como evoluíram os seus rendimentos entre 2009 e 2014, conclui-se que os 10% mais pobres perderam 25% do seu rendimento enquanto os 10% mais ricos perderam 13%.

Em termos líquidos, isso significa que o grupo dos 10% mais pobres (o chamado 1º decil) perdeu, em média, 69 euros por mês (que representa a quebra de 25%), enquanto os 10% mais ricos (o 10º decil) perderam 340 euros por mês (menos 13% do que recebiam em 2009).

E por que razão houve essa maior perda em termos relativos entre os mais pobres? “Por um lado, a crise económica em si mesma. E, muito em particular, a exclusão de largos milhares de trabalhadores por conta de outrem do mercado de trabalho teve efeitos devastadores", explica o estudo "Desigualdades do Rendimento e Pobreza em Portugal: As Consequências Sociais do Programa de Ajustamento", acrescentando que o facto de os mais pobres não terem sido diretamente afetados pelos cortes nos salários e nas pensões “não chegou para compensar esses efeitos". E acrescenta: "Por outro lado, as alterações introduzidas nas transferências sociais, em particular no Rendimento Social de Inserção, no Complemento Solidário para Idosos e no Abono de Família, foram determinantes no aumento da pobreza e, simultaneamente, no agravamento das condições de vida das famílias mais pobres".

A análise da evolução dos rendimentos deste estudo considera, assim, que "é um mito" a afirmação de que as classes médias foram fortemente penalizadas no decurso do processo de ajustamento e que as políticas de austeridade preservaram os rendimentos dos mais pobres. "Nem as classes médias foram as que mais sofreram com as políticas seguidas, nem os mais pobres foram poupados no processo de empobrecimento", conclui o estudo.

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Os mais jovens perderam mais

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Se separarmos todos os portugueses pela idade e quisermos saber se quem perdeu mais foram os mais novos ou os mais velhos, os números ajudam a responder e apontam para que a perda tenha sido mais intensa entre os mais jovens.

Entre 2009 e 2014, os jovens com menos de 25 anos sentiram uma perda de 29% dos seus rendimentos, acima da perda média de rendimentos para o conjunto de todos os portugueses (que perderam 12%). Os dados mostram que, no caso destas famílias mais jovens, a perda mensal rondou os 230 euros. O rendimento dos jovens passou a ser assim a representar cerca de dois terços (64%) daquele que é o rendimento médio nacional, quando em 2008 representava 80%.

Os baixos salários, a falta de emprego e a precariedade que caracterizaram o mercado de trabalho para os mais jovens nos últimos anos ajudam a explicar estes números. Em paralelo, é de sublinhar que estas dificuldades acabaram por se traduzir na saída de muitos jovens que procuraram trabalho fora do país.

Ainda que sem dados sobre as idades dos emigrantes, o Observatório da Emigração estima que 540 mil portugueses tenham deixado o país entre 2009 e 2014. Os dados sobre o retorno não ultrapassam a média de 20 mil regressos anuais.

Numa situação de menor perda de rendimentos estão os mais velhos, idades acima dos 65 anos, e que viram os rendimentos descer 7% (uma quebra abaixo da média nacional de 12%).

Também os níveis de escolaridade da população permitem outro olhar para a forma como os rendimentos evoluíram. Quem tem um curso superior perdeu menos do que quem tem menos habilitações? A resposta não é assim tão clara.

Antes de mais, é de sublinhar que quem tem um curso superior consegue um rendimento duas vezes acima daquele de quem tem o 6.º ano ou menos. Mas o que os números mostram é que as famílias com o menor nível de escolaridade, 2.º ciclo ou inferior, são as que perderam menos.

A perda de rendimento entre quem tem o ensino superior foi de 20% (cerca de 340 euros mensais a menos), enquanto a perda de quem tem o 6.º ano ou menos foi de 13% (menos 96€ mensais). "Este resultado, aparentemente contraditório com os resultados nas secções anteriores, é elucidativo da complexidade dos efeitos da crise sobre a variação do rendimento das famílias", conclui o estudo.

report cover

A geração atraiçoada.

Reportagem EXPRESSO
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Quanto perderam as pessoas
com o meu nível de escolaridade?

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Fonte: Rodrigues, C.F., Figueiras,R. e Junqueira,V.(2016). Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: As Consequências Sociais do Programa de Ajustamento, FFMS.

Nota: Informação baseada nos microdados do EU-SILC 2010 e 2015. Os valores deste gráfico são uma aproximação à perda do rendimento equivalente entre 2009 e 2014 dos vários grupos. Os valores estimados não têm em conta o efeito dos outros rendimentos do próprio ou da respectiva família.

Como evoluíram os rendimentos
desde 2006?

Evolução real do rendimento equivalente médio mensal das famílias desde 2006, englobando um período antes da crise.

Arraste o cursor para ver evolução

2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
2014
down price
-
174
face a 2007

Fonte: Rodrigues, C.F., Figueiras,R. e Junqueira,V.(2016). Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: As Consequências Sociais do Programa de Ajustamento, FFMS.

Nota: Informação baseada nos microdados do EU-SILC 2007 a 2015.