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A evolução Recente dos Indicadores de pobreza,
desigualdade e exclusão social

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O PARADOXO desta pandemia

A leitura da evolução dos principais indicadores de desigualdade, pobreza e exclusão social recentemente divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, a partir do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento realizado em 2020, suscita diversas questões sobre as principais tendências observadas e a sua pertinência para retratar a actual situação social do país.

A larga maioria dos indicadores agora apresentados têm como referência os rendimentos auferidos pelas famílias em 2019, isto é, anteriores aos efeitos socioeconómicos provocados pela COVID-19 e às medidas de contenção da crise sanitária.

A evolução dos rendimentos familiares registada em 2019 confirma a tendência para a melhoria das condições de vida da população, para a redução da pobreza, da desigualdade e da exclusão social. Os poucos indicadores que têm como referência o próprio ano do inquérito (2020) não parecem espelhar ainda os efeitos da crise pandémica.

Mas a realidade social do país é hoje, infelizmente, bem diferente. A partir de Março de 2020, os efeitos socioeconómicos da pandemia, com a redução expressiva da actividade económica, o aumento do desemprego e a quebra dos rendimentos de largos sectores da população agravou de forma inequívoca as condições de vida de milhares de pessoas. As políticas públicas desde então implementadas tentaram minimizar, ainda que de forma insuficiente, os principais efeitos sociais desta crise.

Se a actual situação socioeconómica corresponde a uma interrupção da evolução positiva verificada na pobreza e desigualdade ou a uma inversão dessa mesma tendência é algo que ninguém pode ainda responder com confiança. Irá depender, certamente, da evolução da pandemia e da intensidade e da qualidade das políticas públicas para assegurarem uma recuperação económica inclusiva no período pós-pandemia.

O que temos hoje é uma situação paradoxal em que os indicadores oficiais de pobreza e desigualdade reflectem uma evolução muito positiva baseados nos rendimentos até 2019 e um 2020/21 que todos reconhecemos expressarem uma realidade muito diferente.

A evolução da pobreza monetária

Em 2019 a taxa de pobreza do conjunto da população reduziu-se para 16,2%. Este resultado, o mais baixo registado desde que o INE iniciou a publicação anual deste indicador em 1995, confirma a tendência decrescente da incidência da pobreza no país desde 2014.

Este resultado globalmente positivo em 2019 tem, no entanto, alguns aspectos contraditórios que uma análise mais fina permite identificar.

Entre os aspectos mais positivos destaque-se que a redução da taxa de pobreza nacional foi acompanhada por uma diminuição da incidência da pobreza em todas as regiões do país. A quebra foi particularmente notória na região com maior nível de pobreza, a Região Autónoma dos Açores. Neste arquipélago verificou-se um decréscimo da taxa de pobreza de 3,3 pontos percentuais (p.p.) o que, contudo, não impede que esta continue a ser a mais pobre entre as sete regiões consideradas.

Um outro factor positivo prende-se com a redução da incidência da pobreza em alguns grupos particularmente vulneráveis: a taxa de pobreza das famílias monoparentais diminuiu 8,4 p.p.; entre os desempregados reduziu-se 6,8 p.p. e entre os indivíduos a trabalhar desceu 1,2 p.p.

O aspecto mais negativo da evolução dos indicadores de pobreza em 2019 foi o agravamento da taxa de pobreza das crianças e jovens e da população idosa. Comparativamente a 2018 a taxa de pobreza das crianças e jovens agravou-se 0,6 p.p. passando de 18,5% para 19,1%. No caso da população idosa subiu de 17,3% para 17,5%.

A análise por escalões etários permite, assim, constatar que a diminuição da taxa de pobreza foi sustentada na redução da pobreza entre a população em idade activa, que diminuiu de 2 p.p. Este grupo, que constitui cerca de 60% da população, viu a sua taxa de pobreza decrescer de 16,9% para 14,9%. Para esta evolução contribuiu certamente a melhoria das condições do mercado de trabalho em 2019.

Outro elemento negativo é o agravamento da intensidade da pobreza, que passou de 22,4% em 2018 para 24,4% em 2019. A evolução negativa deste indicador poderá eventualmente ser explicada pelo incremento do limiar de pobreza. A subida da linha de pobreza de 501 para 520 euros/mês torna o limiar de pobreza mais exigente levando a que a distância que separa o rendimento mediano dos pobres do limiar de pobreza se torne maior.

Finalmente, é de salientar o forte agravamento da pobreza nas famílias com três e mais crianças. A taxa de pobreza agravou-se, entre 2018 e 2019, 9,6 p.p., passando de 30,2% para 39,8%. A grande volatilidade da incidência da pobreza deste grupo nos últimos anos mais não é que a demonstração da sua grande vulnerabilidade social. Não pode, igualmente, ser indissociável do aumento da incidência da pobreza entre as crianças e os jovens.

Em síntese, os dados agora publicados sobre a evolução da pobreza monetária são globalmente positivos, mas contêm elementos adicionais de preocupação. E continuam a demonstrar que um elemento fundamental de qualquer estratégia de combate à pobreza tem que priorizar a situação das crianças e dos jovens de forma a assegurar uma redução sustentada da pobreza no curto e no longo prazo.

Desigualdade mantém evolução descendente em 2019

Todos os indicadores de desigualdade estimados a partir do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento apontam para uma redução do nível de desigualdade em 2019. O coeficiente de Gini diminui 0,7 pontos percentuais, passando de 31,9% em 2018 para 31,2% em 2019. A distância que separa os 10% (20%) mais ricos dos 10% (20%) mais pobres também diminuiu.

Igualmente positivo é o facto da desigualdade, medida pelo coeficiente de Gini, ter-se reduzido em todas as regiões do país com excepção do Norte onde se manteve inalterada.

Desagravamento da privação material em 2020

Contrariamente aos indicadores baseados no rendimento que têm como período de referência o ano anterior ao inquérito, os indicadores de privação material dizem respeito ao próprio ano do inquérito. Seria, por isso, expectável que os indicadores agora publicados já reflectissem o agravamento da situação social resultante da pandemia.

Não é isso que se verifica. A taxa de privação material reduziu-se de 15,1% em 2019 para 13,5% em 2020. A evolução da privação material severa segue um padrão similar passando de 5,6% para 4,6%. A generalidade dos itens de privação que constituem a base para o cálculo destes indicadores regista igualmente uma ligeira melhoria.

Um aspecto curioso, ainda que a exigir estudo mais aprofundado, concerne ao único indicador de privação que regista um ligeiro agravamento: a proporção de famílias incapazes de custear uma refeição de carne ou de peixe de dois em dois dias, que aumentou de 2,3% em 2019 para 2,5% em 2020. Este indicador poderá ser aquele onde mais rapidamente os efeitos da quebra de rendimentos e a emergência da crise se faz reflectir nos indicadores de privação.

Dois milhões em situação de pobreza ou exclusão social.

O indicador de taxa de pobreza ou exclusão social estimado pelo INE é um indicador síntese que conjuga a pobreza monetária, a privação material e o afastamento dos indivíduos em idade activa do mercado de trabalho, sendo fortemente determinado pela pobreza monetária. Um aspecto que é necessário ter conta é o de que ele combina indicadores baseados nos rendimentos de 2019 com os indicadores de privação referentes a 2020.

Dada a análise atrás efectuada não é surpreendente que também este indicador evidencie uma redução expressiva. De acordo com o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento de 2020 2,037 milhões de pessoas (19,8% da população) encontrava-se em situação de pobreza ou de exclusão social.

Que balanço global podemos fazer destes números? É indiscutível que confirmam a tendência dos últimos anos de uma melhoria relevante da condição social do país, que conduziu a uma redução dos principais indicadores de pobreza, privação material e de desigualdade.

Mas estes dados também evidenciam a grande fragilidade da situação social em Portugal, com uma larga percentagem da sua população em situação de pobreza ou exclusão social e com elevados níveis de desigualdade.

Essa fragilidade traduz-se claramente numa menor resiliência na capacidade de a nossa economia e as políticas públicas enfrentarem de forma eficaz os efeitos sociais de uma crise profunda como a que vivemos.

E evidenciam igualmente que a recuperação económica que será preciso implementar para a saída da presente crise tem de ser necessariamente uma recuperação inclusiva, que tenha em conta os grupos sociais mais vulneráveis. Somente assim será possível retomar a tendência decrescente dos indicadores de pobreza e de desigualdade, de melhorar de forma sustentada o bem-estar da população.

Carlos Farinha Rodrigues

Professor do ISEG, Universidade de Lisboa

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Distribuição do
Rendimento Disponível

Evolução Real do Rendimento Disponível
Por Adulto Equivalente (euros/mês) 2003-2019

Em 2019 o rendimento equivalente mediano das famílias portuguesas subiu, em termos reais, cerca de 7,4%, passando de 838 para 900 euros/mês.

  • Mediana

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: Rendimento Mediano por Adulto Equivalente. Valores a preços de 2019. O valor de 2019 é provisório

Rendimento Mensal Equivalente
na União Europeia (valores em euros 2018)

Em 2018, último ano para o qual o Eurostat disponibiliza informação acerca do rendimento médio de praticamente todos os países da União Europeia (UE), o rendimento médio mensal por adulto equivalente das famílias portuguesas foi de 982 euros. Este valor correspondia a cerca de 58% do valor médio da UE (1 692 euros) e a 53% do valor médio dos países da zona euro (1 861 euros).

Fonte: Eurostat EU-SILC 2019. Eurostat database, informação recolhida em 01/02/2020

Nota: Rendimento Mensal em euros.

Nota: Valor do Reino Unido (2017)

evolução da desigualdade
Coeficiente de Gini (2003-2019)

A tendência de descida do coeficiente de Gini iniciada em 2014 manteve-se em 2019, registando nesse ano um valor de 31,2%. Este nível de desigualdade constitui o valor mais baixo do coeficiente de Gini desde o princípio da presente série iniciada em 2003.

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: O valor de 2019 é provisório

Evolução da Desigualdade

Uma outra forma de olhar para a evolução da desigualdade é confrontando a distância que separa o rendimento médio dos indivíduos na base da escala de rendimento com o daqueles que se situam no topo dessa escala. Os índices S80/S20 e S90/S10 permitem-nos aferir da desigualdade entre os extremos da distribuição do rendimento por adulto equivalente. A evolução destes indicadores é similar à observada para o coeficiente de Gini. Em 2019, o rendimento médio por adulto equivalente dos 10% mais ricos era cerca de 8,1 vezes superior à dos 10% de menores rendimentos.

  • Rácio S90-S10
  • Rácio S80-S20

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: O valor de 2019 é provisório

Desigualdade por Regiões

Coeficiente de Gini (2019)

De 29% a 30%

De 30% a 31%

De 31% a 32%

De 32% a 33%

Superior a 33%

Portugal

31,2%

O nível de desigualdade, medido pelo coeficiente de Gini, varia entre as várias regiões do País. A Região Autónoma dos Açores com um valor de 34,5% era a região com maior assimetria na distribuição dos rendimentos, cerca de 3,3 pontos percentuais superior à deigualdade do conjunto do território nacional (31,2%). Comparativamente ao ano de 2018 a desigualdade diminui em todas as regiões com excepção da regiao Norte onde se manteve inalterada.

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Desigualdade na União Europeia

Coeficiente de Gini (2018)

De 22% a 24%

De 24% a 26%

De 26% a 28%

De 28% a 30%

De 30% a 32%

De 32% a 34%

De 34% a 36%

De 36% a 38%

De 38% a 40%

Portugal

31,9%

Em 2018, Portugal era o nono país mais desigual da União Europeia com um coeficiente de Gini de 31,9%, 1,2 pontos percentuais acima da média da UE (30,7%) e 1,7 pontos percentuais acima da média dos países da zona euro (30,2%).

Fonte: Eurostat EU-SILC 2019. Eurostat database, informação recolhida em 01/02/2020

Nota: Valor do Reino Unido (2018)

Pobreza
Monetária

Evolução da Pobreza Monetária
(2003-2019)

A incidência da pobreza atingiu, em 2019, 16,2% da população total, o valor mais baixo desde que o INE a começou a publicar anualmente este indicador em 1995.

Nesse mesmo ano, a intensidade da pobreza (que avalia quão pobres são os pobres) subiu cerca de 2 pontos percentuais, de 22,4% para 24,4%, anulando a redução alcançada no ano anterior.

  • Taxa de pobreza
  • Intensidade
    de Pobreza

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: O valor de 2019 é provisório

Incidência da Pobreza Monetária

por Regiões (2019)

De 10% a 12%

De 12% a 14%

De 14% a 16%

De 16% a 18%

De 18% a 20%

De 20% a 22%

De 22% a 24%

De 24% a 26%

De 26% a 28%

Superior a 28%

Portugal

16,2%

De acordo com os últimos dados divulgados pelo INE a taxa de pobreza em Portugal situava-se, em 2019, nos 16,2%. Apesar de este ser o valor mais baixo verificado no nosso país desde o início da publicação anual desde indicador em 1995, a incidência da pobreza não é homogénea ao longo do território nacional. A taxa de pobreza mais baixa ocorre na região de Lisboa (11,1%) enquanto que os valores mais elevados se verificam nas Regiões Autónomas dos Açores (28,5%) e da Madeira (26,3%). Apesar dos elevados níveis de pobreza registados nas regiões autónomas estas duas regiões registaram uma expressiva redução da incidência da pobreza comparativamente a 2018: 3,3 pontos percentuais na R.A.Açores e de 1,5 pontos percentuais na R.A.Madeira

portugal

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Evolução da percentagem
de crianças e idosos em situação de pobreza

A proporção de crianças e jovens vivendo em situação de pobreza atingiu, em 2019, o valor de 19,1%, tendo-se registado um acréscimo de 0,6 pontos percentuais face ao verificado no ano anterior. Na população idosa a incidência da pobreza registou igualmente um ligeiro acréscimo de 0,2 pp, fixando-se em 2019 nos 17,5%.

O aumento da incidência da pobreza nestes dois grupos, onde se situa uma parte significativa da população mais vulneravel, poderá parcialmente ser explicada pela subida registada no limiar de pobreza que passou de 501 para 540 euros/mês, mas não deixa de constituir um sinal de preocupação.

  • Crianças: 0-17 anos
  • Idosos: + 65 anos

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: O valor de 2019 é provisório

Taxa da Pobreza na União Europeia

(2018)

De 6% a 8%

De 8% a 10%

De 10% a 12%

De 12% a 14%

De 14% a 16%

De 16% a 18%

De 18% a 20%

De 20% a 22%

De 22% a 24%

De 24% a 26%

De 26% a 28%

UE 28

16,8%

Zona Euro

16,4%

Portugal

17,2%

Em 2018, Portugal apresentava uma taxa de pobreza muito próxima do valor médio da União Europeia. A incidência da pobreza no nosso país (17,2%) era 0,4 pontos percentuais superior à da média da UE (16,8%) e 0,8 p.p. superior à média da zona euro (16,4%).

Fonte: Eurostat EU-SILC 2019. Eurostat database, informação recolhida em 01/02/2020

Nota: Valor do Reino Unido (2018)

Taxa de Pobreza
por Grupo Etário (2019)

A redução da taxa de pobreza do conjunto da população, que passou de 17,2% em 2018 para 16,2% em 2019, deve-se essencialmente à redução da incidência da pobreza dos indivíduos em idade activa. Este grupo etário registou um decréscimo de cerca de dois pontos percentuais. A incidência da pobreza nas crianças e jovens e na população idosa registou um ligeiro agravamento, de 0,6 e de 0,2 pontos percentuais, respectivamente.

As crianças e jovens permanecem como o grupo etário onde se regista uma maior incidência da pobreza.

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: O valor de 2019 é provisório

Taxa de Pobreza
Por Composição do Agregado Familiar (2019)

A análise da incidência da pobreza por tipo de família permite identificar os núcleos familiares mais vulneráveis à pobreza monetária. Em 2019, as famílias monoparentais e as famílias com três ou mais crianças dependentes eram as que apresentavam taxas de pobreza mais elevadas (25,5% e 39,8%, respetivamente). O aumento da incidência da pobreza nas famílias com três ou mais crianças dependentes, mais 8,3 p.p. do que no ano anterior, constitui um factor de preocupação acrescida quanto às condições de vida deste grupo social.

Considerando o conjunto das famílias com crianças dependentes, a sua taxa de pobreza era de 17,0%, mais 1,6 pontos percentuais do que a registada nas famílias sem crianças dependentes (15,4%).

Famílias sem crianças (15,4%)

Famílias com crianças (17,0%)

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: O valor de 2019 é provisório

Taxa de Pobreza
Segundo a Condição Perante o Trabalho (2019)

A população em situação de desemprego é um grupo social extremamente vulnerável às situações de pobreza. Apesar da taxa de incidência da pobreza neste grupo ter diminuido entre 2018 e 2019 em 1,3 pontos percentuais permanece como um dos grupos com maior taxa de pobreza entre a população portuguesa (40,7%). O desemprego permanece, assim, um dos principais factores de pobreza.

A proporção da população empregada em situação de pobreza diminuiu de 10,8% para 9,6%. Apesar desse decrescimo não deixa de constituir um factor de preocupação acrescida a existência de uma percentagem tão expressiva de indivíduos que apesar de terem emprego não conseguem evitar a situação de pobreza.

A incidência da pobreza da população reformada aumentou ligeiramente passado de 15,2% em 2018 para 15,7% em 2019.

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: O valor de 2019 é provisório

Privação Material
e Exclusão Social

Indicadores de Privação Material

Os dois principais indicadores de privação material das famílias em Portugal registaram, desde 2014, uma descida pronunciada, invertendo o agravamento verificado durante a crise.

Em 2020, estes dois factores registaram o valor mais baixo desde o início da série em 2004: A taxa de privação material do conjunto da população foi de 13,5%; a proporção da população em privação material severa foi de 4,6%.

  • Taxa de privação material
  • Taxa de privação material severa

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: O valor de 2020 é provisório

Itens de Privação Material em Portugal
(2010-2020)

Entre os diferentes factores que contribuem para a definição dos indicadores de privação material saliente-se que, em 2020, 30,7% das pessoas vivem em agregados familiares sem capacidade para assegurar o pagamento imediato, sem recorrer a empréstimo, de uma despesa inesperada próxima do valor mensal da linha de pobreza. Nesse mesmo ano, 5,4 % dos indivíduos vivem em agregados sem capacidade para pagar atempadamente rendas, encargos ou despesas correntes. Por último, 17,4% dos residentes em Portugal declaram que não têm capacidade económica para manter a casa adequadamente aquecida.

Apesar de estes números terem vindo a diminuir de forma sustentada nos últimos anos não deixam de traduzir uma situação de vulnerabilidade social que continua a afectar uma percentagem das famílias do país.

Sem capacidade para assegurar o pagamento imediato de uma despesa sem recorrer a empréstimo

Sem capacidade para pagar uma semana de férias por ano fora de casa

Com atraso em pagamentos de rendas, encargos ou despesas correntes

Sem capacidade para ter uma refeição de carne, peixe (ou equivalente vegetariano) pelo menos 2 em 2 dias

Sem capacidade para manter a casa adequadamente aquecida

Sem disponibilidade de máquina de lavar roupa

Sem disponibilidade de televisão a cores

Sem disponibilidade de telefone

Sem disponibilidade de automóvel

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: Os valores de 2020 são provisórios

Taxa de Privação Material Severa
na União Europeia (2019)

Em 2019, a taxa de privação material severa em Portugal (5,6%) era ligeiramente superior à verificada no conjunto da União Europeia (5,5%) e 0,7 pontos percentuais superior à da zona euro (4,9%).

Fonte: Eurostat EU-SILC 2019. Eurostat database, informação recolhida em 01/02/2020

Nota: Valor do Reino Unido (2018)

População em Situação de Pobreza
e Exclusão Social

A taxa de pobreza ou de exclusão social é um indicador síntese utilizado pelo sistema estatístico da União Europeia para caracterizar as famílias e as pessoas que se encontram em pelo menos uma das três situações seguintes: em situação de pobreza monetária; em situação de privação material severa; em situação de afastamento do mercado de trabalho, traduzida no facto de, num dado agregado, os indivíduos adultos entre os 18 e os 59 anos trabalharam em média menos de 20% do tempo de trabalho possível (baixa Intensidade laboral).

Em 2020, dois milhões de pessoas (19,8% da população) encontravam-se em situação de pobreza ou de exclusão social em Portugal. Este valor, ligeiramente inferior ao verificado em 2019 (21,6%) revela que cerca de um quinto da população vive em situação de pobreza ou de exclusão social.

Apesar de estes números se referirem ao ano de 2020 os dados do INE parecem ainda não reflectir os efeitos sociais da pandemia provocada pelo COVID 19 e pelas respostas económicas à crise.

População em Situação de Pobreza e Exclusão Social

Taxa de Pobreza e Exclusão Social

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: Os valores de 2020 são provisórios

Exclusão Social

por Regiões (2020)

De 14% a 16%

De 16% a 18%

De 18% a 20%

De 20% a 22%

De 22% a 24%

De 24% a 26%

De 26% a 28%

De 28% a 30%

De 30% a 32%

Superior a 32%

Portugal

19,8%

Em 2020, cerca de dois milhões de pessoas, 19,8% da população total, encontrava-se em situação de pobreza ou de exclusão social. Mas também em relação a este indicador se verificam fortes assimetrias regionais: O valor mais baixo da taxa de pobreza ou de exclusão social verifica-se na região de Lisboa (14,6%) enquanto que os arquipélagos dos Açores (32,4%) e da Madeira (32,9%) são as regiões nacionais com valores mais elevados neste indicador.

portugal

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Interseção das Várias Dimensões da Pobreza
e Exclusão Social (2019)

A forma como as três dimensões (taxa de pobreza, privação material severa e baixa intensidade laboral) da exclusão social se interrelacionam e se intersectam pode ser ilustrada no gráfico abaixo. Em 2019, 2,2 milhões de pessoas encontravam-se em situação de pobreza ou exclusão social, 1,77 milhões em situação de pobreza e 557 mil em privação material severa. Cerca de 1,7 milhões de pessoas eram afetadas por uma dimensão da exclusão social, 420 mil por duas dimensões e 85 mil pelas três dimensões em simultâneo.

População em situação de Pobreza: 1,77 milhões

17,2%

População em situação de Privação Severa: 557 mil

5,6%

População em Agregados de Baixa intensidade Laboral: 532 mil

4,4%

População pobre, mas que não está em privação nem tem baixa intensidade de trabalho 12,5%

População pobre, que está em privação mas não tem baixa intensidade de trabalho 2,1%

População não pobre, que está em privação mas não tem baixa intensidade de trabalho 2,5%

População não pobre, que não está em privação mas tem baixa intensidade de trabalho 1,6%

População pobre, que não está em privação mas tem baixa intensidade de trabalho 1,8%

População não pobre, que está em privação e tem baixa intensidade de trabalho 0,2%

População pobre, que está em privação e tem baixa intensidade de trabalho 0,8%

População em situação de Pobreza ou Exclusão Social: 2,2 milhões

21,6%

da População Total

Fonte: INE, Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, 2019

Taxa de Pobreza e Exclusão Social
na União Europeia (2019)

Em 2019 a taxa de pobreza ou de exclusão social em Portugal (21,6%) era ligeiramente superior à verificada no conjunto da União Europeia (21,4%) e cerca de 0,8 pontos percentuais superior à da zona euro (20,8%).

Fonte: Eurostat EU-SILC 2019. Eurostat database, informação recolhida em 01/02/2020

Nota: Valor do Reino Unido (2018)

O Papel das Políticas
Redistributivas

Impacto das Transferências Sociais na Pobreza

A importância crescente das prestações sociais na redução da incidência da pobreza surge claramente evidenciada neste gráfico. Tomando como referência o ano de 2019, é possível verificar que a incidência da pobreza no conjunto da população foi de 16,2%, mas que, mantendo inalterado o montante em euros que define a linha de pobreza e subtraindo ao rendimento disponível das famílias, as transferências sociais relacionadas com a doença e incapacidade, família, desemprego e inclusão social, a incidência passaria para 21,9%. As transferências sociais possibilitam, assim, uma redução da incidência da pobreza em 5,7 pontos percentuais. De igual forma, é possível verificar o impacto das pensões na redução da incidência da pobreza. Essa redução é de 20,5 pontos percentuais, sendo notória a importância desta fonte de rendimento nos recursos das famílias.

Fonte: INE - EU-SILC 2004-2020

Nota: O valor de 2019 é provisório

  • Antes de qualquer transferência social
  • Após transferências relativas a pensões
  • Após transferências sociais